INTOLERÂNCIA RELIGIOSA – “Mãe perde a guarda da filha após raspagem do cabelo em ritual sagrado”

De acordo com a declaração da Organização das Nações Unidas (ONU), esse tipo de intolerância caracteriza-se como “toda a distinção, exclusão, restrição ou preferência fundada na religião ou nas convicções e cujo fim ou efeito seja a abolição ou o fim do reconhecimento, o gozo e o exercício em igualdade dos direitos humanos e das liberdades fundamentais”.

– Cabelos e religião estão intrinsecamente ligados –

As leis suntuárias da igreja regulamentavam a maneira como as pessoas deveriam usá-los e cortá-los, para restringir determinados modismos.

As evangélicas não cortam os cabelos em respeito a citação de Paulo em Coríntios 11,15: “Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu”.

As judias, no período de luto, não cuidavam dos seus cabelos; algumas os raspavam e até o arrancavam.

Os nazarenos recebiam ordens para deixar cabelos e barba, sem conhecer a navalha. Jesus e os apóstolos são representados com cabelos e barbas longas; o mesmo acontecia com os eremitas, mas se entrassem em uma ordem religiosa eram tonsurados.

Na antiguidade, os cabelos da mulher indicavam sinais de disponibilidade, desejo e entrega, e presos, a reserva.

Quem os deixavam soltos eram as pecadoras ou as suspeitas de adultério; Maria Madalena é retratada desta forma, e chega a enxugar os pés de Jesus com eles.

Até o século XIX, cortar os cabelos era uma falta grave, visto como desobediência e punição (recordemos de Joana D’arc). A mulher não poderia entrar na igreja, e na morte não teria a sepultura religiosa.

Na idade Média – Os cabelos dos reis jamais poderiam ser cortados; quem os colocou no trono foi Deus, cuja força divina também estaria contida nos cabelos. – Suspendia-se o corte dos cabelos durante as guerras em sinal de voto e penitência. Os cavaleiros usavam cabelos compridos em sinal de nobreza e devoção a Virgem Maria, uma mulher.

O corte dos cabelos dos adolescentes era acompanhado de preces. -Lavá-los não era recomendado e só o faziam 2, 3 vezes ao ano.

Penteado era revestido de extrema importância; somente reis e rainhas podiam ter cabelos longos que indicam as insígnias do poder e da proteção de Deus. No século XVII e XVIII propagou-se o uso de perucas, que eram carregadas de farinha de trigo.

Até 1970, mulheres eram proibidas de entrar na igreja sem um véu sobre seus cabelos.

Sansão liderou os israelitas contra os filisteus e era dotado de uma força espetacular. Chegou a dizimar exércitos inteiros já que era invencível. Porém, se apaixonou por Dalila, que era do povo filisteu. Ela, sabendo que sua força provinha dos cabelos de Sansão, tratou de cortá-los. Sem forças, ele foi cegado por seus inimigos e morto, sem antes ter de volta os seus poderes e destruí-los. 

Os cabelos seriam detentores da essência vital; acredita-se que podem conservar suas virtudes espirituais e representam os poderes do ser humano como a força e a virilidade. Ao cortar ou raspá-los, sentenciam a renúncia e o despojamento (como fazem os budistas).

Buda deu início a sua vida de mendicância depois que raspou os cabelos; por isso os budistas até hoje, raspam os fios em sinal de menosprezo a vida material. Curiosamente, usa-se um método divinatório – divinação capilar – na China e no Vietnã.

No Candoblé, raspar a cabeça também, é um momento de purificação e o modo de fazer a pessoa renascer, se preparando para receber sua divindade. Este ato litúrgico é chamado de labé, pelos iorubás, fárí, pelos fons, e catular, pelos bantus, sendo que hoje se associou o termo catular para o corte inicial do cabelo. O cabelo, para as pessoas, tem uma representação simbólica de poder, soberania, vivência e beleza. Tirar o cabelo, para o iniciado, significará cortar todos estes elos, retroceder à infância, época em que a pureza e a inocência estão presentes, sem existir a vaidade e a soberba, apenas a humildade. O raspar a cabeça é também necessário para que as obrigações litúrgicas sejam realizadas diretamente sobre o orí, para que os elementos interliguem-se a este com mais facilidade. Representa o ato de dar equilíbrio à cabeça, proporcionar a harmonia necessária ao seu fortalecimento e poder fixar os elementos que participam da feitura. Recriando, então, no aiê, a mesma cabeça que foi preparada no orum por Babá Ijalá. A navalha (obé sirè) e a tesoura (obé fárí) eram herdadas de Axé, sendo uma honra usar a navalha do seu mais velho, mas hoje precisam ser individuais para este ato, pois são instrumentos que serão utilizados no orí do iniciado e também na época de seu Axexê. E este procedimento é obrigatoriedade nos dias atuais, tanto como medida de higiene, como na prevenção contra doenças.

Adepta do candomblé, Kate Belintani – Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: