Afrofuturismo na política

Está enganado quem acha que o movimento negro mundial se contentou com a passagem de Barack Obama pela Casa Branca entre os anos 2009 e 2016. Ativistas estão imaginando muitas soluções para a sociedade atual, como, por exemplo, o conceito de afrotopia (a utopia negra), criado pelo intelectual senegalês Felwine Sarr e adotado pela artista norte-americana Ingrid LaFleur. Há nessa onda de reapropriação do futuro pelos negros também o afrofuturismo político e o afropolitanismo (cosmopolitismo a partir da África). O afrofuturismo, movimento associado à cultura de maneira geral, está sendo agora aplicado no campo político. A expansão é apontada por pesquisadores e intelectuais.

O afrofuturismo, movimento associado à cultura de maneira geral, está sendo agora aplicado no campo político. A expansão é apontada por pesquisadores e intelectuais. As experiências da artista Ingrid LaFleur, pré-candidata à prefeitura de Detroit (EUA), e Erica Malunguinho, deputada estadual (PSOL-SP), mostram que esse futuro já começou.

“Essa política é a de reimaginar novos mundos, sobre outras narrativas a partir da potência da África e dos negros em diáspora”. A definição é de Thamyra Thamara, empreendedora do Complexo do Alemão, no Rio….

O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, abriga um laboratório afrofuturista, organizado pelo coletivo de comunicação Gato Mídia. O curso tem formações para todos interessados em três linguagens: artes visuais, programação e realidade virtual focada em 360°. Thamyra Thâmara, uma das fundadoras da Gato Mídia, acredita que o curso tem o objetivo de potencializar moradores da região, de maioria negra, a contar a própria história, a partir de uma perspectiva diferente. Para ela, trata-se de uma ação afrofuturista na prática. “A gente está formando pessoas que vão produzir outras narrativas sobre corpos negros a partir não mais da dor, mas a partir do renascimento.”, afirma Thâmara

O termo ‘afrofuturismo’ significa o movimento estético e político que mistura ancestralidade africana e tecnologia. O conceito surgiu em 1993, no artigo escrito pelo pesquisador branco Mark Dery, autor do artigo “Black to the Future”. A partir do momento em que alguns personagens da cultura negra começaram a ter destaque na mídia, o movimento se expandiu e ganhou mais importância. Kênia Freitas enxerga o afrofuturismo em outros campos: um exemplo é o pensamento do filósofo camaronês Achille Mbembe, que defende a ideia do ‘afropolitanismo’, concepção de que deve haver uma maior conexão entre os países do continente africano para romper com os limites nacionais construídos pelo colo…

“O afrofuturismo deixa de ser uma questão étnica ou continental e se torna planetária, é preciso entender que o futuro negro é o futuro da Terra”, afirma Kênia Freitas, pós-doutoranda em Comunicação na UNESP, pesquisadora sobre afrofuturismo e autora do artigo “O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo versus Afropessimismo – as distopias do presente”. Influenciado pelos movimentos pan-africanista e as experiências socialistas na África, Mbembe acredita que essa aproximação precisa transpor o campo literário e cultural e se efetivar nos planos econômico e político. Rosane Borges defende que os africanos e os negros da diáspora dispõem de tecnologias que, no decorrer da história.

Rosane Borges acredita que essa reconstrução dos rumos da história está em curso no Brasil. A crise vivida pelas esquerdas têm sido superada pela articulação desses segmentos sociais, em especial o negro. “Por isso dizem que se tivermos alguma revolução ela será preta e feminina, porque são dessas duas variáveis, extremos de diferenciação negativa, que a gente ouve uma radicalidade e uma crítica contundente do que se tornou o Estado brasileiro, a política nacional, o cotidiano das relações institucionais e políticas”, conclui….

Fonte. Pedro Borges e Lucas Veloso – Do Alma Preta, em colaboração com o TAB

FOTO DE CAPA. artista Ingrid LeFleur é apontada como representante do afrofuturismo na política dos EUAImagem: Divulgação

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