Literatura – Sansão e Dalila, o preço da liberdade.

Havia no vale de Sorec uma linda filistéia chamada Dalila. Seu nome, de graciosa sonoridade, significava “flerte”, ou “delicadeza”, e condizia bem com o seu aspecto misteriosamente dúbio, em que uma sensualidade natural convivia harmonicamente com uma inesperada delicadeza. Tudo em seu corpo era um convite irresistível – e ao mesmo tempo, sedutoramente austero –, desde os seus lábios rubros e sempre úmidos até os dedos bem cuidados dos seus pés atraentes. Dotada de uma pele morena, Dalila andava sempre envolta em túnicas de linho negro que se ajustavam ao seu corpo como uma segunda pele escura e sedutora, como a das panteras.

Dalila, no entanto, não era, nem de longe, uma mulher vulgar. Apesar de sua vida amorosa ser um tecido de romances clandestinos – afinal, era a mulher mais cobiçada de toda a Filistéia –, pouco tinha, porém, da cortesã fatal. Ela não era um modelo de virtudes, mas tinha classe. Não era confiável, mas atraía.

Atração e traição. Certo ou errado, Dalila era ambos. Porém, de sua vida pregressa nada se sabia, até o instante em que passa a dividir a cena com o seu novo e robusto amante.

– Sansão, estar em seus braços é como estar espremida entre as duas colunas que sustentam o mundo! – dizia ela, perfeitamente à vontade sem a sua segunda pele, nos raríssimos instantes em que se permitia elogiar, sem cálculo, a um homem. Isto porque o dinheiro de um homem bem situado era o único meio que possuía uma mulher – que ambicionava ser mais do que uma mera escrava de um macho sisudo – de não ser ultrajada diariamente por sua condição servil de mulher.

Para Sansão, por sua vez, ter em seus braços rijos aquela serpente dotada de braços e de pernas era, ao mesmo tempo, um revigorante exercício de virilidade que envolvia um risco vagamente mortal.

Mas o que era, afinal, o desejo, sem o menor traço do risco?, perguntava-se ele, mesmo já tendo provado da falsidade que podia provir de uma mulher – e pior, ainda, de uma mulher idólatra, que servia voluntariamente a um deus de abominações. O desejo tinha de ter algo de ameaça. Um beijo envolvia sempre um risco, ou então não era nada. Assim pensavam os dois, e por isto permaneciam tanto tempo juntos, durante os seus encontros furtivos, procurando extrair daquela espécie de duelo sensual o maior número de situações deliciosas e perigosas.

– Às vezes, em seus braços, sinto a volúpia da morte, uma outra morte que não sei explicar – dizia ela, depois de cessados os jogos amorosos. – Uma morte de tudo quanto há de aborrecido neste mundo, e dentro de mim mesma! Sansão também sentia o mesmo, pois ele também transgredia. Ambos trangrediam, pois o amor de um israelita e de uma filistéia só podia ser mal visto por ambos os lados, entregues a uma disputa permanente e mortal.

Mas cessados os prazeres – durante os quais Sansão perdia a cabeça–, Dalila voltava a ser a mesma de antes de sua subida ao leito. Submetida às injunções de um mundo implacável, assim que tocava o primeiro dedo do seu pé sobre o frágil tapete, ela colocava a cabeça de volta no seu devido lugar e punha-se a raciocinar.

Isto ela fez com maior intensidade quando recebeu, certo dia, a visita de uma comissão de chefes filisteus – príncipes que governavam cada uma das cidades que compunham a confederação da chamada Filistéia – para lhe fazer uma gravíssima imposição.

– Dalila, sabemos que você mantém um romance, que imagina secreto, com o líder supremo de nossos inimigos – disse o líder do grupo, um velho filisteu de barbas brancas que trazia um segundo e inconfesso interesse naquela embaixada.

A bela filistéia, que recém havia se levantado do leito, tentou esconder o que estava à vista de todos.

– Não perca seu tempo tentando negar, pois será pior – disse o velho, que parecia verdadeiramente enciumado.

Dalila sabia reconhecer quando a situação lhe era irremediavelmente desfavorável. Nesses instantes, o princípio da realidade assomava em si, soberano. “Agora estou a sós com meus inimigos”, pensou, repetindo as palavras que sempre lhe acudiam à mente em situações parecidas. Dalila, como todos os destemidos, capitulou apenas com o olhar.

– Queremos que descubra de onde Sansão retira sua força prodigiosa – disse o velho. – Pagaremos, por isto, mil e cem siclos de prata.

Dalila ficou paralisada. Todo e qualquer escrúpulo que lhe viera à mente diante das primeiras palavras do velho desaparecera diante da segunda parte de sua fala.

“Mil e cem siclos de prata!”, pensou, perdendo novamente a cabeça.

Então o escrúpulo inicial cedeu passo ao cálculo, expediente mental infinitamente mais útil e necessário a uma mulher que não deseja servir a ninguém. “Cedo ou tarde, Sansão me abandonará”, pensou ela.

Aquele foi um subterfúgio pouco nobre. Mas quem disse que ela amava a nobreza? Tudo o que Dalila queria era fugir da pobreza. Além do mais, mil e cem siclos de prata valiam cerca de 275 vezes o preço de um escravo.

“Duzentas e setenta e cinco vezes liberta!”, pensou ela, inebriada por aquela exorbitância de liberdade. Sim, aquilo era o bastante para fazê-la esquecer que seu gesto implicava não só uma traição, como também a possível morte do homem com o qual ela dividira apaixonadamente seu leito nos últimos meses. “Sansão é homem, e esta é uma briga de homens”, pensou novamente. “Além do mais, ninguém ama uma prostituta, senão o prazer que ela dá.” Com este pensamento esquivo, Dalila lançou a última pá de cal sobre os restos agonizantes de sua dignidade moral – pois se havia uma coisa de que estava inteiramente convicta era a de que num mundo material o que realmente importava era a dignidade mate

Carmen Seganfredo & Ademilson Franchini



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