Para não deixar uma data passar em branco

No dia 25 de Maio, reuniram-se em Adddis-Abeba líderes de 32 países africanos, que assinaram a carta que declara a Libertação  da África  contra a subordinação  imposta pelos europeus. A Partilha ou divisão da África entre os europeus foi definida pela Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885, e significou a apropriação pelos europeus  das  riquezas humanas e naturais do continente. A Organização das Nações Unidas (ONU) vendo a importância daquele encontro de 1963, instituiu em 1972 o 25 de Maio Dia da Libertação da África.

Sempre pesquiso as questões dos negros, a força e a coragem que eles têm para superar as adversidades que o preconceito lhe impõe, ao tempo em que vou comparando com o “tudo de branco que há em mim.”

Essa minha consciência da solitude que chegou com a pandemia, me trouxe a tona a memória afetiva da minha mãe, (que se foi tem quase um ano) e descubro como foi triste o seu eterno descontentamento com a vida, que pode ter sido construído a partir do ranço branco que ela levou durante toda uma existência. Destaque neste caso, para a sua cabeça Europeia, que de tão branca ela achava que era igualmente brancos seus pensamentos e suas atitudes perante a vida, as pessoas e as coisas.

O que eu fiz? O que poderia fazer? O branco dominava a minha educação burguesa. Que coisa! E eu era pobre na forma na lei.  Mas, o cabelo tinha que ser liso, o marido tinha quer ser branco e rico para limpar a família com filhos e netos brancos, a língua a ser estudada tinha que ser a inglesa, francesa, espanhola, a roupa não poderia ser colorida. “Tranças? Isso é coisa de negro. Você não é negra, você tem traços afilados de branco, se passa muito bem por uma branca, quiçá, morena clarinha.”

Minha mãe não conseguiu se separar da Europa, apesar de nunca ter saído de Pernambuco, viveu uma vida inteira com um sentimento europeu. O individualismo era o seu grande desejo, o poder dominador sobre os filhos e as pessoas, a frieza e um grande prazer em achar que essas características eram as certas.

E ela foi sem ao menos saber como e onde aprendeu a ser assim!

Certo dia, durante uma entre tantas leituras, que fazia ainda muito jovem, li sobre um soldado inglês que em 1918, ficou cara a cara com um soldado alemão ferido. Ele escolheu não atirar neste soldado inimigo, em vez disso ele o deixou passar. Acontece que esse soldado alemão era Adolf Hitler. Se ele tivesse puxado o gatilho, havia uma possibilidade da Segunda Guerra Mundial não ter acontecido.

Esta história me serviu como uma catarse, no sentido real da palavra – “libertação do que estava reprimido ou sensação de alívio causada pela consciência de sentimentos ou traumas anteriormente reprimidos.” E encontrei na filosofia Ubuntu e na sua forma de se relacionar com as pessoas e o mundo, um novo olhar. Até tentei mostrar a minha mãe e os meus mais próximos que o meu sentimento era de pertencimento. Eu sou de lá, da África. E por ser de lá eu comungo com a filosofia – ubuntu, onde as pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha.

“Eu sou porque nós somos”. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito, empatia.”*Dirk Louw, doutor em Filosofia Africana pela Universidade de Stellenbosch (África do Sul).

Luciana Araújo

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